Estava numa floresta escura, fria e densa, o chão composto pelas raízes negras, profundamente fincadas no solo, que era totalmente encoberto por essas raízes, já que havia camadas e camadas de raízes, uma fincada à outra, em nós e entremeios, estreitos e abruptos. O céu era completamente oculto pelas folhas largas, finas, delicadamente metálicas, brilhantes e pontudas, enraizadas em galhos aparentemente robustos e nodosos, mas eram na verdade completamente ocos, como os troncos, de madeira negra, mas em menor escala. Nem uma flor, nem uma erva daninha, nem um musgo, nem uma cor, nem uma alegria, eu estava só e solitário, sem vitualhas nem pertences, caminhando por dias, eternidades, sem ver nada além de troncos e folhas absolutamente iguais, um lugar sem água, sem ar, sem vida, apenas frio e trevas... Frio e trevas... Frio e trevas... Folhas metálicas, delicadas e estruturas ainda mais... Sem ventos, sem ares de transformação, tudo imóvel, debilmente fixo, sem movimento, sem razão...
Os tempos passaram e eu estava caminhando cada vez mais lentamente, estava faminto, com sede... Sede... Minhas forças... Esgotando-se... Desvanecendo-se...
Foi quase desistindo que finalmente cheguei a um portão frágil, delicado, ornado em complexos arabescos. Ele separava a floresta do que parecia ser um mar de areia negra, árida e gélida. Atravessei o portão e vi a mais bela paisagem de minha vida, aquele lindo solo negro arenoso, brilhante, uniforme, leve, esvoaçante, parado em suas dunas, sorrindo para mim, num horizonte sem fim. O céu agora era visível, de nuvens plúmbeas, baixas, desfiadas, que de tão aglomeradas era impossível ver através delas... Será que ainda havia o azul por trás? Eu não estava feliz em ver a paisagem, estava cansado demais para isso. Caí no chão daquele lugar e chorei por ali estar.
Precisava dormir, precisava descansar, precisava viver...
Permaneci deitado por eternidades, mas não me conseguia pregar os olhos, eles estariam vidrados se ainda existissem, não recuperava minhas forças, não me animava mais, e o medo preenchia o vazio de meus pensamentos. Surdo por não ter nada à ouvir, mas não cego, minha alma nunca deixou de ver tudo perfeitamente.
Depois de eternidades precedidas, sem motivos nem explicações, me ergui, e para meu desânimo maior, nada, nada havia mudado, tudo estava exatamente igual, mas prossegui, sem razão para ir ou ficar, prossegui, pois ainda tinha uma vaga esperança de sair de lá, de me ver feliz novamente. Atrás de mim a floresta, soberba em sua altura infinita e em sua consistência imponente, contida pela cerca e o portal de ferro, e a diante todo aquele deserto, belo, embora desprovido de vida, cada grão Dalí parecia valioso, pareciam diamantes negros miúdos...
... Passaram-se mais e mais eternidades, mais tempo do que eu podia ser. O tempo passava muito lento, tal como eu vagava, e absolutamente nada havia mudado, a floresta continuava visível, já que era verticalmente infinita, desaparecia entre as nuvens cinzentas inertes no céu, e o deserto o mesmo cheio das dunas de antes...
No mesmo motivo insano de antes, continuei vagando, mesmo sem forças para isso, até que por entre aquelas dunas eu pude avistar lá longe algo inédito. O horizonte, até agora um fio negro parecia estar sendo sobreposto por um fino fio vermelho, em todo horizonte. Aquele traço me trouxe o primeiro sentimento desde que eu apareci naquele lugar, parecia que até então meus sentimentos estavam dormentes, e o primeiro desperto foi o sentimento de medo, mas não um medo qualquer, um temor, de ânsia, de terror, parecia que eu tinha agora um destino forçado, ou não, mas tinha, afinal não tinha outra saída, tudo que eu podia ter visto naquele deserto eu já tinha visto, afinal era tudo igual, ou pelo menos era o que eu pensava...
Pouco a pouco eu pude avistar melhor o meu destino, enxergar mais nitidamente o vermelho morto ao horizonte, e sentir cada vez mais forte o medo dentro de mim... Vaguei, vaguei, vaguei, nem sei quanto, e muito menos por quanto tempo, pois não era possível ser ter a noção do tempo, já que os céus estavam sempre na mesma tonalidade de cinza escuro, as nuvens absolutamente paradas, fantasmagóricas, observando-me de cima, e os grãos da areia negra reluziam sempre distantes um dos outros da mesma forma, tal como o silêncio que nunca era quebrado por nada...